O MODERNO CONVÍVIO NO SÉCULO XXI
Estas linhas foram escritas durante minha última viagem de férias, quando a rotina e o ‘modus operandi’ das pessoas me chamaram a atenção de forma quase que alarmante.
É curioso como, em pleno século XXI, vivemos um ‘tempo de paradoxos’: os direitos são amplamente defendidos, mas os deveres (ou o modo de agir) parecem desaparecer no horizonte. E o coletivo, onde fica?
A convivência em sociedade parece cada vez mais difícil. O conveniente se torna incoveniente e vice-versa. Senti como se estivéssemos navegando por um mar de direitos conquistados, mas quase sem bússola de responsabilidades.
A seguir, alguns episódios que ilustram essa minha inquietação. Sim, apenas ‘alguns’.
No aeroporto, aguardando o embarque, o anúncio foi claro: “Passageiros da classe prioritária e grupos 1 e 2, favor dirigir-se às filas correspondentes”. Mesmo assim, aquela multidão se amontoou diante do portão, ignorando a instrução e atrasando o processo. As regras do jogo ali, escancaradas, mas a conveniência pessoal parecia falar mais alto (sem citar o despacho obrigatório das malas haha).
Fiquei observando e pensando: o que aconteceu com a capacidade de seguir uma simples regra? Um simples pedido? Talvez pensaram que o avião decolaria sem elas, só pode.
Durante o voo, dois passageiros cariocas comentavam sobre “novinhax” (sim, com ‘x’, pois eles trocam pelo ‘s’), assuntos vulgares, em meio ao silêncio típico de um voo noturno. Falavam sobre meninas, muitas vezes menores de idade, como se isso fosse motivo de orgulho. Local apropriado para o assunto, certamente não era.
No transfer do aeroporto, o motorista apontou para uma passarela na rodovia BA-099 e contou sua história. Ali, muitas vidas haviam sido ceifadas antes que a comunidade conquistasse a construção de uma passarela. Típico de Brasil e brasileiro, após anos de luta, as pessoas continuam atravessando por baixo, pelo asfalto, ignorando a passarela e os riscos. É como se os direitos, uma vez conquistados, dessem permissão para desrespeitar as normas pensadas justamente para o bem comum. O pior é que, ao agir assim, esqueceram as mortes, os protestos, as histórias que motivaram aquela conquista.
Em todos os casos: Não respeitam, não aprendem, não refletem.
Em uma noite, em um restaurante mais refinado, a cena se repetiu de outra forma.
Algumas famílias chegaram com filhos pequenos... Acabou a paz (DEIXO CLARO, NADA CONTRA CRIANÇAS). Em vez de cuidar deles, ‘terceirizaram’ aos demais presentes, como se o restaurante fosse uma creche improvisada. As crianças subiam nas mesas, gritavam e corriam, enquanto o constrangimento se espalhava pelo ambiente. Por muito menos, em outros tempos, levávamos um puxão de orelha ou ouvíamos aquela famosa frase: “Em casa, a gente conversa”.
O curioso e quase irônico é que muitos desses pais foram os primeiros a criticar comportamentos alheios, inclusive o de um tranquilo gato que circulava do lado de fora do ambiente sem incomodar ninguém. Uma das mães chegou ‘tropelar’ o bichano quando sua filha tentou acariciá-lo.
Tenho várias outras observações, mas esses exemplos bastam e me fizeram refletir sobre o assunto. Quando o individual se sobrepõe ao coletivo, o convívio se torna estranho e, por vezes, desagradável.
Vivemos em um tempo em que muitos exigem, mas poucos se dispõem a arcar com as consequências, sequer das próprias atitudes.
Queremos cobrar do Estado, das autoridades, da coletividade, mas raramente estamos dispostos a colaborar para que as coisas funcionem. Queremos exigir, mas não queremos ceder. Ou não queremos seguir as regras do jogo.
A sociedade parece ter se tornado um grande campo de batalha onde cada um defende seus direitos com unhas e dentes, esquecendo que os deveres são igualmente essenciais para o sistema funcionar. Não há harmonia possível sem respeito mútuo... Lembro daquele trecho que diz que “o direito de um termina onde começa o do outro”. Velho, né?
Será que, de fato, é difícil respeitar as regras e contribuir para uma sociedade mais civilizada, onde o coletivo se sobreponha ao individualismo? Bah... Acho que em uma sociedade verdadeiramente civilizada, SIM, todos têm o direito de ser respeitados, mas também o dever de respeitar.
Sei lá, ainda temos muito a refletir e, quem sabe, a aprender.
FABIANO MARANGON

Comentários
Postar um comentário