NOTA


Bom… Não sou de falar em “política”, mas… Lamentável a publicação do município de Pato Branco com o ‘chamamento para artistas e bandas locais’.

Sim, os artistas foram “lembrados”… Que honra, né?

Tudo depois da nota divulgada pela dupla que ‘ousou’ tocar no assunto, aí sim, no apagar das luzes, o grande gesto: o chamamento público aos artistas locais. Que momento histórico! Aliás, digno ser lembrado na própria cidade.

Logo na sexta linha, o selo “realidade brasileira”, reforçando o zelo com o dinheiro público, a frase de ouro: “sem qualquer custo para o município”. Que alívio! Já posso até imaginar o raciocínio por trás de quem elaborou tal publicação: “Ora, o artista toca por amor, não é? Então que o amor pague as cordas, as palhetas, o deslocamento e, se possível, o espetinho depois do show, ou até um capeta (sempre presente nas feiras).”

Tem noção do valor de um jogo de cordas? De uma palheta? Uma hora de estúdio? Talvez, com um pouco de sorte, ainda peçam para levar as caixas de som. Quem sabe até uma extensão, por via das dúvidas.

O curioso é que, quando se trata de contratar uma atração nacional, o discurso muda. Aí se fala em investimento, em retorno turístico, em fortalecimento da cultura. Mas, quando o assunto são os artistas da cidade, aqueles que vivem aqui, em cada oportunidade que surge, o tom vira caridade: “vamos dar uma chance pros locais.”

Como se presença no palco fosse esmola.

E você pode pensar: “Santo de casa não faz milagre”… Sim, pode ser (ainda mais com o mesmo incentivo que se repete há décadas). Então, nem mude o planejamento de última hora, siga firme na ideia inicial (sem os locais), que ficaria ao menos, menos feio.

Sei o que falo, no passado, já toquei na feira. Jovem, empolgado, acreditando que aquele seria o primeiro passo de muitos. E foi, ao menos, o primeiro passo rumo à compreensão de como a valorização cultural costuma funcionar: com aplausos sinceros, mas bolsos vazios.

Iria novamente? Não. Porque amor pela arte não precisa ser sinônimo de ingenuidade.

O mais legal é que tudo poderia ter sido diferente. Bastava planejamento, pensar antes…

Acho até que seria mais “lucrativo” pra ambos, eventos ao longo do ano. Movimentaria o cenário, revelaria talentos, prepararia o público e, claro, selecionaria os nomes, já preparando uma divulgação DIGNA. Mas isso exige trabalho… Aliás, em Pato Branco temos praticamente TODOS os gêneros musicais, hora de ajudar realmente os artistas locais! Temos rock, pop, rap, metal, sertanejo, pagode, gaúcho, enfim…

Assim, repete-se o enredo: músicos locais colocados em horários “alternativos”, em palcos “alternativos”, com som “alternativo”. Tudo bem democrático, desde que não custe nada.

No final, a feira será um sucesso, claro. Fico feliz com isso, não sou contra o município onde nasci e vivo. Os números serão anunciados, os discursos feitos, e todos aplaudirão o esforço coletivo. Só que, entre uma nota e outra, ficará aquele ruído persistente, o do desrespeito ecoando em dó menor.

FABIANO MARANGON

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