CORREDOR DE TORNADOS: DESTRUIÇÃO E LUTO EM RIO BONITO DO IGUAÇU
Como diz aquele velho ditado “depois da tempestade vem a calmaria”, quem viu o fim da noite e amanhecer deste sábado 08, não imagina que, algumas horas atrás, um cenário de caos e destruição assolou parte da região Sul do Brasil. Ao menos quatro tornados foram registrados entre os estados do Paraná (Turvo/Guarapuava e Rio Bonito do Iguaçu) e Santa Catarina (Dionísio Cerqueira e Xanxerê), deixando um rastro de destruição. No município de Rio Bonito do Iguaçu (PR), a Defesa Civil do Paraná confirmou até o momento cinco mortos e mais de 400 feridos. Além disso, registro de centenas de municípios em ambos os estados com prejuízos e pessoas afetadas pelos fortes ventos, alagamentos e granizo. A sexta morte foi confirmada em Guarapuava, na manhã deste sábado, 08. Em Rio Bonito do Iguaçu, as vítimas foram três homens com idades de 49, 57 e 83 anos, e duas mulheres, com idades de 47 e 14 anos. A vítima de Guarapuava foi um homem de 53 anos.
CORREDOR DE TORNADOS.
Se puxarmos o histórico recente, somente no período de transição do outono para o inverno deste ano, tivemos ao menos seis tornados registrados, quase todos entre o Oeste e Meio-Oeste catarinense: Belmonte, Descanso, Lages, Passos Maia, São José do Cerrito e Xavantina.
Nos últimos meses, também tivemos registros no interior de Pato Branco e Mariópolis.
O meteorologista Piter Scheuer afirma que “nossa região (do oeste de Santa Catarina, sudoeste do Paraná, também noroeste do Rio Grande do Sul) é uma região que é corredor de tempestades. É a segunda região do planeta em que mais ocorrem tornados, perdendo só para os Estados Unidos, regiões do meio-oeste americano”, explicou.
Estamos localizados em uma zona de transição entre massas de ar quente e úmido provenientes da Amazônia e do norte do país e massas de ar frio e seco que chegam da Antártida. Esse contraste térmico, aliado ao relevo e à umidade abundante, cria um ambiente propício para tempestades severas e a formação de tornados.
Embora a maioria desses eventos seja de baixa intensidade, alguns casos, como os registrados neste dia 07 de novembro de 2025, já causaram danos significativos em áreas urbanas e rurais.
A região Sul é a mais propensa ao acontecimento de tornados. Um grupo de estudantes e professores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) divulgou um estudo onde, de 581 fenômenos identificados, 411 tornados ocorreram nos estados do Sul, representando 70% dos registros de tornados no País. Lembrando que o estudo analisou ocorrências de tornados em todo o Brasil de 1975 a 2018. O Paraná teve 89 tornados no período, com a maioria acontecendo no período da tarde. A categoria mais identificada, com 115 ocorrências, foi a de escala EF1, que se caracteriza por ventos de 138 a 177 km/h.
CONTEXTO METEOROLÓGICO.
Em Rio Bonito do Iguaçu, o instituto meteorológico Simepar classificou o fenômeno como tornado (provavelmente de categoria EF2 na escala Fujita, com indícios de que em alguns pontos tenha atingido EF3), com ventos estimados entre 178 km/h e mais de 217 km/h e 218 a 266 km/h, respectivamente.
Para Piter “essa condição da atmosfera foi reforçada por uma poderosa linha de instabilidade e algumas supercélulas organizadas pela formação de um Ciclone Extratropical. Analisando as imagens de radar, as variáveis dos temporais, nós tivemos a formação de tornados. Em Rio Bonito do Iguaçu foi um EF3 ou um EF2. Vários locais da cidade foram totalmente destruídos, foi algo assim extremamente severo. Tivemos outros locais aqui em Santa Catarina que também temos que analisar para ver se não foi um tornado que estava embebido da mesma supercélula, o mesmo sistema de tempestade”, reforçou o meteorologista.
Ainda sobre a região, Ronaldo Coutinho do Prado, da Climaterra — São Joaquim — SC, falou em entrevista ao jornalista Fabiano Marangon no Programa Desperta Brasil pela Rádio Celinauta FM: “tivemos a passagem desta frente fria que acabou gerando um tempo mais severo, foram dois ou três pontos na região de Dionísio Cerqueira e Barracão, um tornado, provavelmente EF1 (ventos entre 138 e 177 km/h). Ali na região de Xanxerê, também deu um tornado, outro em Faxinal dos Guedes que fica ali também próximo de Xanxerê, e sim, pode ter sido até a mesma célula. Sobre Itapiranga, deu uma microexplosão, mas lá sem danos maiores, só o susto”.
Em Santa Catarina, não tivemos o registro de óbitos nesse episódio específico, mas os danos psicológicos e materiais foram enormes.
Coutinho também falou sobre “Rio Bonito do Iguaçu ali sim ali pode ter sido um tornado EF3 ou EF4, que são tornado muito robustos, ventos acima de 300 km/h. Pelos estragos, se fosse nos Estados Unidos, ficaria mais para um EF4, onde os ventos podem passar dos 400 km/h. Mas a destruição foi muito grande naquela região, tivemos o registro de um possível tornado em Turvo, também no Paraná”, relatou.
Quanto ao histórico desta nossa zona de transição, entre 1991 e 2019, foram contabilizadas 34 ocorrências de tornados confirmadas. O que mostra que o fenômeno, apesar de raro, não é inédito para a região.
“Esse tipo de fenômeno, como o registrado em Rio Bonito do Iguaçu (EF3), é muito raro aqui no Brasil, felizmente. O mais comum é o que ocorreu na região de Xanxerê e Dionísio Cerqueira (EF1). Estamos na segunda região do mundo em ocorrência de tornados, só que num nível bem mais baixo que os Estados Unidos. Mas eventualmente temos esses gigantes que ocasionam essas situações”, finalizou Coutinho.
RIO BONITO DO IGUAÇU.
Rio Bonito do Iguaçu conta com uma população de 13.255 habitantes, conforme estimativas do IBGE no censo de 2020, e está localizada a pouco mais de 100 km de Pato Branco. Existe a suspeita de mais vítimas sob escombros. Mais de 3 mil imóveis da cidade seguem sem luz e a distribuição de água também foi afetada.
Cerca de 80% da cidade foi devastada: casas destelhadas, quedas de árvores, postes derrubados e muitos imóveis destruídos. As equipes da Defesa Civil e dos Bombeiros seguem trabalhando firme desde o fato. Buscando resgatar vítimas, liberar vias e restabelecer serviços básicos.
O jornalista Ari Ignácio de Lima, da TV Celinauta, em participação no programa Essa é Boa, pela Rádio Celinauta, relatou que no município não há comunicação por linha normal de telefones, não há internet, e alguns locais isolados encontram-se sinal de celular. A comunicação para o boletim, foi com um sinal via satélite, em colaboração com uma emissora local, o cenário é desolador “Os relatos das pessoas com as quais a gente conversou são de emocionar. Casas totalmente destruídas, pessoas que conseguiram se salvar por poucos minutos, até porque o tornado foi pouco depois das seis, quando as empresas estavam fechadas. Nos colégios, as crianças já tinham ido embora, se fosse pouco antes, a tragédia teria sido maior”.
O número de feridos ultrapassou 400, com cerca de 30 em estado moderado ou grave. Até aqui, cinco mortes foram confirmadas “foram mais de 400 pessoas atendidas, foram feitas quatro cirurgias de pessoas em estado grave e cinco pessoas mortas. Duas seguem em estado grave e não há como precisar exatamente quantas pessoas foram feridas. Nas próximas horas teremos mais informações”, relatou Ari.
Sobre o cenário? “Parece uma área de confronto atingida com bombas, igual a uma guerra, né? Não há palavras para descrever o sentimento”, finalizou o jornalista.
A FORÇA DA NATUREZA E A URGÊNCIA POR MUDANÇAS.
Quem viu o céu tranquilo e estrelado da madrugada e talvez ainda não tivesse acompanhado os noticiários, não seria possível sequer imaginar o que havia se passado há poucas horas. Mas os relatos estão aí, as imagens, também: cenário de guerra, casas destruídas, famílias em abrigos, árvores arrancadas, caminhões tombados e claro, a dor de quem perdeu entes queridos. A calmaria do tempo chegou, porém, a reconstrução do que se perdeu será longa.
Cabe à sociedade, aos governos e às comunidades aprender com a tragédia: revisar seus planos de emergência, reforçar a vigilância meteorológica, melhorar a comunicação de alerta, comunicando cada vez com maior eficácia. E aos meios de comunicação, portais e páginas de redes sociais, garantir a informação correta, não a que apenas busca o “curtir” e “compartilhar”.
Sobre a divulgação dos alertas e previsões, Ronaldo Coutinho foi firme ao afirmar “é o que eu sempre digo, o que aconteceu ali é uma tempestade. Então vemos a diferença do que é uma tempestade, temporal, trovada e chuva forte. Por isso que eu sempre fico batendo na tecla de a gente começar realmente a classificar tudo com mais responsabilidade. Quando se fala em tempestade, tu vai esperar algo parecido com o que aconteceu em Rio Bonito do Iguaçu. E essa talvez tenha sido a pior tempestade do Paraná em muito tempo.”
Diante da tragédia de tamanha proporção, como a que atingiu Rio Bonito do Iguaçu, fica evidente a força da natureza e, ao mesmo tempo, nossa fragilidade diante de eventos extremos. Este é um momento de reflexão sobre a necessidade urgente de investimento em prevenção, monitoramento climático e educação sobre riscos meteorológicos.
A reconstrução das cidades, da vida e da rotina das pessoas afetadas exigirá tempo, recursos e, sobretudo, empatia e solidariedade. Que a dor deixada por este episódio sirva como alerta e aprendizado coletivo, para podermos estar mais preparados e unidos diante das próximas adversidades que, inevitavelmente, o clima ainda poderá impor.
FABIANO MARANGON

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