A ARTE DE DESAPRENDER


Em determinado trecho da viagem, deparei-me com um trecho de Mark Twain, que me serviu de inspiração.

“Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas; só por isso, muitas pessoas precisam muito viajar. Não se pode ter uma visão ampla, abrangente e generosa dos homens e das coisas, vegetando num cantinho do mundo a vida inteira".

Viajar é, antes de tudo, um ato de expansão, não apenas de território, mas de consciência. Isso resume com precisão uma verdade que, mesmo em tempos de hiperconectividade, ainda parece esquecida por muitos: nada substitui o contato direto com o outro, com o diferente, com o imprevisível.

Vivemos uma era em que se pode “visitar” o mundo pela tela do celular, mas essa ilusão de presença raramente provoca o mesmo impacto que sentir o chão de uma rua desconhecida, ouvir uma língua que não se domina, ou perceber que nossos costumes (para nós tão naturais e óbvios) não são universais.

Viajar nos arranca do centro do mundo que criamos em torno de nós e nos obriga a olhar de novo, com humildade, para o todo.

Há algo profundamente educativo em reconhecer-se estrangeiro. E é nesse "desconforto" que o preconceito se desarma, porque o “outro” deixa de ser um pré-conceito e ganha rosto, voz e história.

Quando atravessamos fronteiras, geográficas ou culturais, entendemos que o modo como vivemos é apenas uma entre muitas possibilidades, e que nossas verdades são, na verdade, versões.

Infelizmente, há quem confunda o ato de viajar com turismo superficial... uma sucessão de fotos e paisagens, sem verdadeira abertura ao novo.

Viajar de verdade é mais do que deslocar o corpo: é deslocar o olhar, a mente. É permitir-se desaprender, é se deixar transformar.

Estava com saudades de ouvir outras línguas, encontrei norte-americanos, holandeses, franceses, argentinos e até mesmo brasileiros, que com seus dialetos foi difícil de entender.

Por isso, talvez o maior valor das viagens não esteja nos lugares que visitamos, mas nas fronteiras internas que cruzamos.

Afinal, como Twain sugere, quem “vegeta num cantinho do mundo” não apenas desconhece os outros, desconhece a si mesmo.

FABIANO MARANGON

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