SEXTA-FEIRA 13: O DIA EM QUE ATÉ OS TROPEÇOS VIRAM PROFECIAS


Sexta-feira 13 sempre me lembra daquele parente chato que aparece a cada tanto nos encontros de família. Chega sempre com um sorriso estranho e um repertório de informações duvidosas (pra não chamar de fofoca). Com ele ali, ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas todo mundo se prepara para o pior.

É curioso como, nesse dia, a jornada fica cheia de pequenas advertências, tipo: não passe debaixo da escada, não cruze com gato preto na rua, não quebre espelhos, não pise com o pé esquerdo ao levantar da cama ou entrar em lugares, não abra guarda-chuvas dentro de casa, não tome decisões importantes, enfim…

Há quem não viaje, não assine contratos, não comece nada. É como se o calendário, de repente, tivesse intenções próprias.

O mais fascinante é que qualquer acontecimento ganha um tom extra de drama e significado. Um tropeço deixa de ser distração e vira presságio. O café derramado já não é descuido, é o universo enviando recados. Até o acaso parece agir com propósito.

Agora, acredito que você concorda comigo...

Sempre achei particularmente intrigante a má reputação das escadas, não? Elas permanecem ali, imóveis, cumprindo sua função. No entanto, passar sob seus degraus seria um cartão de visitas ao azar. Como se o azar estivesse à espreita, aguardando apenas nossa imprudência para entrar em cena.

Talvez a verdadeira força dessa data esteja menos nos acontecimentos e mais nas expectativas. Tudo nos transforma em intérpretes de sinais imaginários. Ficamos vigilantes, quase cúmplices da própria superstição. Mas, no fim das contas, é apenas mais um dia.

O gato preto continua seu caminho com absoluta indiferença ao nosso medo, provavelmente ele é que tem medo de nós. A escada segue apoiada na parede. E o café, inevitavelmente, pode cair em qualquer data do ano, certo?

A diferença é que, nesse dia específico, temos uma narrativa pronta para explicar nossos pequenos desastres. E talvez isso seja reconfortante. Culpar a data é mais simples do que admitir que a vida, às vezes, só acontece.

FABIANO MARANGON

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