TEMPOS MODERNOS: OS DESAFIOS COM A SAÚDE MENTAL NA 'ERA DIGITAL'


Tendo tudo 'na ponta dos dedos', a vida passou a ser de 'aba em aba'.


Impressionantes avanços tecnológicos destes últimos anos transformaram a maneira como vivemos, trabalhamos e nos conectamos. Essa revolução apresentada pela ‘era digital’ também trouxe, de carona, desafios significativos para nossa saúde mental. A internet na ponta dos dedos, a onipresença das redes sociais, o bombardeio de informações têm efeitos profundos sobre o bem-estar psicológico.

A conectividade constante, proporcionada pelos smartphones e outros dispositivos, em muitos casos pode dificultar a separação entre a vida pessoal e profissional, em outros mais graves, a real da virtual.

O anseio de estar sempre disponível para responder a qualquer nova mensagem ou e-mail pode levar ao ‘burnout’, uma forma de exaustão emocional, mental e física causada pelo excesso. A falta de limites claros entre trabalho e lazer pode comprometer o tempo de descanso e recuperação, essencial para a saúde mental.

Para a psicóloga Alice Werner, 46 anos, os impactos do uso excessivo das tecnologias e redes sociais, ainda mais com a sobrecarga de informações que vemos no ‘feed diário de nossas vidas’, são elevados: “sofremos grandes impactos com as tecnologias, principalmente quando elas não são utilizadas da forma correta. Por vezes, vemos famílias deixarem de lado o diálogo e amigos se afastarem por desentendimentos nas redes sociais. Muitas pessoas esqueceram a importância de manter vínculos afetivos presenciais e os substituíram pelos meios virtuais” afirmou a psicóloga.

No campo da educação, como a presença de dispositivos tecnológicos é constante no dia a dia dentro e fora das escolas, a pedagoga Lides Maria Baldissera, 70 anos, afirma que os impactos do uso excessivo de dispositivos e internet no desempenho escolar já são amplamente notados: “observamos a distração, a falta de interação humana, a dificuldade em acompanhar o conteúdo escolar, também em relação aos trabalhos de pesquisa. Na internet se encontra tudo pronto, e é o que limita o aluno a desenvolver discernimento. Ao mesmo tempo que ela (internet) traz benefícios se usada com critérios em situações que facilitam o seu estudo, também pode trazer prejuízos e deixar o aluno dependente e querendo sempre buscar tudo pronto. Isso não é bom para o seu desenvolvimento intelectual” explicou Lides.

Necessidade para alunos, desafio para professores, relatório "Inter-relações Comunicação e Educação no contexto do ensino básico" apresenta dados sobre a relação dos professores com as novas tecnologias digitais. Segundo o documento, cerca de 72% dos professores entrevistados relataram que não tiveram contato com esses meios de comunicação durante a sua formação.

Tendo tudo ‘na ponta dos dedos’, a vida passou a ser ‘de aba em aba’, percorrendo longas horas na vasta oferta de informações e entretenimento ao alcance de um clique. O real passou para o virtual, trazendo consigo também a procrastinação. Quem já não pegou o telefone para dar uma ‘olhadinha’ no WhatsApp, ou em alguma rede social, enquanto realizava alguma atividade? Tal facilidade apresentada pelas redes sociais, jogos, vídeos e a centena de formas de distração desviam o foco das tarefas mais importantes, que muitas vezes não são executadas.

Este é apenas um exemplo de como a internet pode ajudar na procrastinação, buscando até mesmo fugir das tarefas desagradáveis do dia a dia. Além do impacto psicológio, o físico também sente, como afirma o personal trainer Rafael Osorski Pedrolli, 40 anos: “Tudo que é demais, faz mal. O uso excessivo da internet, dos equipamentos digitais, fazem com que o ser humano fique por muito tempo parado, não fazendo por muitas vezes nem ao menos os movimentos naturais necessários para o funcionamento correto de todo seu organismo. Então, com o passar do tempo, isso pode acarretar inúmeras doenças” explicou Rafael.

IMPACTOS DAS REDES SOCIAIS


Podemos classificar as redes sociais como o ‘carro chefe’ da era digital, oferecendo entretenimento, comunicação, interação, mas também em inúmeros casos uma fonte de estresse e ansiedade.

A caça às curtidas, aos comentários, a comparação constante com os outros, a busca por validação e a exposição excessiva também trazem os conteúdos ou resultados negativos, causando inúmeros problemas. Estudos indicam que o uso excessivo das redes sociais está associado a um aumento nos sintomas de depressão e ansiedade, especialmente entre os jovens: “prejudica muito a nossa saúde mental, ocasionando muitas vezes transtornos como ansiedade, fobias e complexos de inferioridade” alertou a psicóloga Alice.

Pesquisa do Instituto Datafolha sobre consumo e comportamento digital do brasileiro, feita em junho de 2022, aponta que o smartphone é o dispositivo mais usado para o acesso à internet.


Entre os jovens de 16 a 24 anos, 97% afirmaram ter smartphone e o mesmo percentual o usa para acessar a internet. Dos 25 aos 34 anos, chega a 94%. Dos 35 aos 44, 91% e 88% dos 45 aos 59 anos. Acima dos 60, contabilizou 72%.

Na infância e adolescência “os impactos são muito grandes com o mau uso das redes sociais. Já notamos o isolamento social, a diminuição do rendimento escolar, a dificuldade em ter e fazer amigos fora da internet. Encontramos também situações mais graves de dependência, com o surgimento da ansiedade e até mesmo a depressão. Não são poucos os casos que a gente tem conhecimento em que isso está acontecendo” contou a pedagoga Lides.

SOBRECARGA DE INFORMAÇÕES


A facilidade de acesso a notícias, artigos e dados pode ser esmagadora. O ‘doomscrolling’, ou seja, o ato de rolar infinitamente por notícias negativas, pode aumentar os sentimentos de ansiedade e desesperança. Além disso, a exposição constante a informações contraditórias e fake news pode criar confusão e aumentar o estresse.

Para a pedagoga Lides, o uso constante de dispositivos eletrônicos pode influenciar negativamente alguns hábitos: “tudo é muito rápido e muito amplo. Antigamente as pesquisas eram feitas em livros e tínhamos a famosa ‘Barça’, onde para fazer uma pesquisa era preciso ler e resumir. Tirar a essência, avaliar a ideia principal daquele texto e, com isso, o que absorvíamos era bem mais consistente. A pessoa precisa desenvolver o pensamento crítico, sempre questionar as informações para poder tomar decisões e chegar às suas próprias conclusões. As informações na internet nem sempre estão confiáveis, por isso o pensar crítico é fundamental” explicou Lides.

O VÍCIO EM TECNOLOGIA E A DEPENDÊNCIA DIGITAL

Como já dito, a necessidade compulsiva de checar notificações, jogar videogames ou navegar na internet pode interferir nas atividades diárias e nas relações pessoais. A dependência digital pode levar ao isolamento social, privação de sono e redução da produtividade, afetando negativamente a saúde mental.

Pesquisa do instituto Datafolha, realizada com brasileiros em 2022, concluiu que 52% dos entrevistados não conseguem ficar um dia inteiro longe do smartphone. 16% apontam que o uso excessivo já atrapalha no âmbito profissional. 16% já sentem o relacionamento com a família afetado. 12% revelaram ser prejudicados enquanto dirigem, ao receber ligações ou mensagens em aplicativos. 6% aponta que o uso recorrente já atrapalha a vida sexual e 2% não notaram diferença, ou não quiseram opinar.


SINAIS DE QUE PRECISA DE AJUDA


A dependência da 'vida virtual' tem se tornado um problema muito sério. A psicóloga Alice, explica como identificar o ponto onde a pessoa precisa de um 'detox digital': “a partir do momento que não consegue mais desempenhar suas atividades domésticas ou profissionais satisfatoriamente. Quando começa a procrastinar, deixar de dar atenção para seus familiares e amigos, esse é o ponto em que se pode perceber que o uso da internet e dispositivos digitais está sendo prejudicial. Ao identificar estes sinais, é necessário fazer uma avaliação de quanto tempo está sendo gasto com a internet, redes sociais e, assim, adotar medidas necessárias para equilibrar o uso do tempo com outras atividades. Recomenda-se a procura por ajuda de um profissional” alertou Alice.

No Brasil, temos o programa ‘Reconecte’. Uma série de projetos para promover ações, desde a educação nos mais diversos aspectos da dignidade humana até as que visam uma reeducação tecnológica, buscando fortalecer as reais relações sociais, da família à sociedade em geral, enaltecendo o uso das tecnologias inteligentemente.

DETOX DIGITAL


A desintoxicação digital, ou o ‘detox digital’, vem ganhando espaço na luta por uma redução consciente do uso da internet e dos dispositivos eletrônicos, tudo em prol do bem-estar físico e mental.

Prática que vai desde pequenas mudanças — como desativar notificações e limitar o uso das redes sociais, até as mais radicais, como passar horas, dias ou semanas sem qualquer acesso aos dispositivos de acesso.

O detox digital pode também auxiliar em uma melhor gestão do tempo, uma maior produtividade e aumentar a concentração em tarefas importantes sem a constante distração ocasionada pelos meios em questão.

Ao desconectar, as pessoas redescobrem a vida ‘offline’ até então deixada de lado, reencontrando hábitos saudáveis como exercícios físicos, leitura e uma boa conversa ‘cara a cara’.

ESTRATÉGIAS PARA BUSCAR UMA MELHOR SAÚDE MENTAL NA ERA DIGITAL

Como profissional da área, psicologa Alice, elencou algumas dicas para manter a saúde mental em dia na era digital: “Se durante a semana você precisa ficar conectado pelo trabalho, no fim de semana deixe seu celular de lado e aproveite para fazer atividades fora das redes, na vida ‘offline’. Dedique mais tempo às pessoas que você ama e fazendo o que gosta” recomendou a psicóloga.

Algumas dicas interessantes para o primeiro passo rumo a uma melhor saúde mental:

— Limite o tempo de uso: estabeleça limites para o uso de dispositivos digitais e reserve tempo para atividades offline com a família, exercícios físicos, leitura ou atividades de lazer.

— Pratique a desconexão: crie momentos de desconexão total, desligue os dispositivos durante as refeições, antes de dormir e durante encontros sociais.

— Busque por interações reais: priorize as interações face a face, no mundo ‘offline’. Fortaleça relacionamentos pessoais, em vez de se concentrar apenas nas interações online.

“Busque sempre utilizar seu tempo livre com coisas que realmente vão lhe fazer bem” encerrou Alice.

Claro, não podemos esquecer do corpo — Quando são, mente sã: “para a saúde mental, a atividade física só tem a contribuir. Desde a questão da sobrecarga que você aplica no cérebro durante todo o dia, trabalhando, se estressando ou tendo emoções nos mais diferentes níveis, em menos de uma hora de atividade física bem direcionada, você consegue focar em outros ângulos de você mesmo, do seu organismo. Então, naquele tempo, você se desliga um pouco do mundo online, ‘desconecta’ uma parte do seu cérebro e ‘conecta’ outra, causando esse bem-estar que a atividade física proporciona também para nossa saúde mental” adicionou o personal Rafael.

ED SHEERAN SEM CELULAR DESDE 2015

Em participação no talk show “Therapuss with Jake Shane”, o cantor britânico Ed Sheeran, 33 anos, afirmou que não tem celular desde 2015, de lá pra cá, usa apenas e-mail. Em certo trecho da entrevista, ele disse: “Não tenho número, mas você pode ficar com meu e-mail, eu tinha o mesmo número desde os meus 15 anos. Fiquei famoso e tinha 10 mil contatos no meu telefone. As pessoas simplesmente mandavam mensagens de texto o tempo todo. Eu estava constantemente em contato com muitas pessoas. E, se você não responder, será rude. Eu já estava perdendo a interação com a vida real. Então me livrei do telefone. Comprei um iPad, mudei tudo para o e-mail, ao qual respondo uma vez por semana”, contou Sheeran.

O RETORNO DO ‘DUMBPHONE’


Muitas pessoas estão deixando de lado seu smartphone em troca do ‘dumbphone’. Não lembra o que é? É aquele primeiro modelo de celular, que não tinha aplicativos e nem tecnologia de ponta, principal aliado de quem quer fugir do mundo digital. Surpreendentemente, voltou ao mercado.

Estão novamente retornando aos sites de vendas à medida que a clientela aumenta, fugindo principalmente das redes sociais.

PARA ALGUNS, O ‘EXCESSO’ FAZ BEM E RELAXA


Aqui também cabe aquele ditado: “toda moeda tem dois lados”. Para o jornalista Jonas Frozza, 30 anos, a jornada é sempre em frente a uma tela. Seja do computador ou do celular, entre uma pauta e outra, a tecnologia é sempre presente: “O trabalho da gente passa inteiramente pelo computador, desde as primeiras horas da manhã, e segue pelo menos até o fim do dia, né? E ainda paralelo a isso, você tem do seu lado o telefone através das redes sociais, sendo hoje um instrumento importante para quem trabalha na comunicação, ajudam muito. No entanto, a questão do celular para mim ficou um pouco diferente com o passar dos anos. Percebi que as redes sociais tomavam de mim um tempo que eu acabava não tendo durante o dia. Naquele momento em que você pensa para concluir um texto, ao invés de eu parar, respirar um pouco, tomar uma água, eu pegava o telefone e as ideias, aquilo que já estava fluindo, ia para o espaço. Você olha a internet, você pega um Instagram, Facebook, você se perde, pois tem muita coisa ali” detalhou Jonas.

Com o passar do tempo, chegou à conclusão de que era preciso mudanças: “desativei as minhas redes sociais. E o resultado que tive durante esse período, que eu já faço de análise, menos ansiedade, mais foco, mais concentração. Para mim, fez muito bem e está sendo muito positivo isso” afirmou Frozza.

Porém, engana-se se pensou que ele largou tudo: “Final de semana é sagrado, e aí a tecnologia entra na minha vida mais uma vez! No sábado, logo depois que encerro meu expediente, chego em casa e alguns amigos já me aguardam. Amigos do Brasil inteiro! Nós nos reunimos de maneira virtual, para jogar. Passamos a tarde, pelo menos das 13:30 até às 18 horas, e no domingo, das 19 às 22 horas. E ali, para mim, é um dos momentos mais relaxantes da semana, é onde eu me renovo para a nova semana. Para mim, funciona muito bem. No meu computador, dentro da minha casa, encontro amigos e a tecnologia nos aproxima de certa maneira e me faz muito bem” contou o Jornalista.

Mesmo com o dia a dia praticamente online, também foi através da tecnologia que encontrou os momentos de prazer que o ajudam a relaxar e recuperar energias para mais uma semana.


Já o editor de vídeos e streamer, Pedro Luiz Sobolewski, 26 anos, cumpre seis horas diárias como editor em uma empresa onde trabalha com carteira assinada, depois faz mais cerca de seis horas de transmissões com a organização esportiva em que participa. Vale lembrar que, além destas horas, ainda se soma o tempo com as demais redes sociais.

Apesar do tempo em que passa em frente às telas, Pedro gosta do que faz e corre atrás: “cansa bastante a gente mentalmente, mas é algo que me dá prazer. Faz parte de um sonho, uma motivação de vida que tenho e dá para se dizer que sou influenciador digital” relatou.

Pedro tem, hoje, mais de 20 mil seguidores nas redes sociais. Conta com uma equipe para auxiliar na produção de conteúdos e ainda é colaborador em um time (organização) de esportes, reconhecido Brasil afora, que conta com mais de um milhão de seguidores, onde já disputou campeonatos internacionais online.

Falando nisso, a vida online não é sempre perfeita. O streamer passou por situações que o deixaram abalado, mas tirou lições importantes dessas experiências: “Uma amiga da equipe postou um conteúdo fazendo dígamos assim ‘piadas’, né? De falas do jogo, sabe como é esse tipo de humor? A galera levou para o lado errado, distorceu o conteúdo e, ainda mais por ela ser mulher, pegaram pesado. Vi todo um preconceito, críticas. E com isso vi ser algo que você tem que estar muito bem preparado. Independente do que você faça nas redes, esteja preparado. Se você fizer sempre um trabalho bom, ótimas participações, podem ter dez comentários bons, que se você não estiver preparado, você focará naquele comentário negativo” descreveu o influenciador.

Não é só conectado que ele vive, também é atleta: “Pratico esporte, academia, alguns dias da semana, eu tenho meus horários de vôlei e é majoritariamente uma interação social com seres humanos fora das telas, entendeu? Desconectado. É o que me ajuda a extravasar energia e a ter esse contato humano, de ver amigos e tudo mais” contou entre risos.

Mesmo com mais da metade de um dia em frente às telas, tem uma boa saúde física e mental e ainda contribuiu com algumas dicas: “tenha tempo com os seus momentos, sabe? Tempo para você mesmo. Apesar de tudo que deve fazer, dedique tempo a coisas de que você goste. Tenha momentos para você ter o ‘reset’ de sua cabeça, se você não tiver esse reset de sua cabeça, muito provavelmente você não irá conseguir. Porque você viverá muito estressado, triste e acabará adoecendo” finalizou Pedro.

A era digital, com todas as suas inovações e conveniências, também traz desafios consideráveis para nossa saúde mental. Reconhecer esses desafios e adotar práticas que auxiliem o psicológico é essencial para navegar de maneira saudável.

O equilíbrio é fundamental para aproveitar os benefícios desta era, sem comprometer o bem-estar na vida cotidiana.

Comentários

  1. Parabéns meu amor, ficou excelente essa matéria. Valeu a pena tanto trabalho e dedicação, tenho muito orgulho de você. Te amo!

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    1. Obrigado pelas palavras e força que sempre me dá! Seguimos juntos. Te amo.

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