CLIMA E CAOS: O CICLO DAS ENCHENTES NO SUL DO BRASIL, DESDE QUE NASCI.
Nasci em julho de 1983, ano e mês de uma das inúmeras grandes enchentes que o sul do país já enfrentou. Aliás, o ano de 1983, ficou marcado pelas enchentes que devastaram os estados do Sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Vários municípios decretaram estado de calamidade pública.
Os três estados foram fortemente afetados, 290 municípios foram atingidos e mais de 300 mil pessoas ficaram desabrigadas. Só em Santa Catarina foram 49 mortes. Além das mortes em decorrência das águas invadindo as residências e desmoronamentos, a leptospirose também foi uma das causas que vitimaram os atingidos.
Minha mãe sempre comenta que ‘não parava de chover’ nos meus primeiros dias de vida. Era constante e incessável – como Forrest, conta no filme: “chuvinha miúda, chuvona pesada, chuva que vinha dos lados e às vezes parecia que a chuva vinha debaixo. Poxa, até chovia de noite”. Ela me levava às consultas médicas com um guarda-chuva, enfrentando o alagamento e claro, as fortes chuvas. A região da baixada foi uma das mais atingidas em Pato Branco.
Ao longo de minha vida, quantos relatos li de moradores da região do ‘Vale do Iguaçu’ sendo despertados pelas sirenes da Defesa Civil e pelos apitos de trens, também usados como sinal de alerta para o caos que estava se instalando com a chegada da enchente. Em União da Vitória, o Rio Iguaçu passou de 13,58 m e alagou cerca de 80% da cidade. No ‘Vale do Itajaí’, em Blumenau, o rio Itajaí-Açu atingiu a marca de 15,34 m, deixando 5 mil casas inundadas, 69 completamente destruídas e 70% da cidade completamente alagada.
A ‘Revista Manchete’ da época publicou: “Blumenau ficou com seu sistema telefônico desativado. A estimativa dos prejuízos no sistema rodoviário, ferroviário e portuário de Santa Catarina é de ordem de CR$ 55 bilhões. Dois terços da atividade econômica de Santa Catarina estiveram paralisados durante a enchente de julho, atingindo diretamente 7 mil das 10 mil e 700 indústrias. O faturamento caiu 77 bilhões de cruzeiros. O ICM sofreu perda de 50%. No Vale do Itajaí, 2.800 indústrias foram afetadas”.
Foi-se a luz, água potável, alimentos e a água não parava de chegar nas cidades. A catástrofe comoveu o país. De sul a norte, o povo se mobilizou para o envio de mantimentos, água e roupas para as vítimas atingidas pela enchente. Certos locais, o único acesso era pelo ar.
DADOS PLUVIOMÉTRICOS DE JULHO DE 1983:
Naquele período estávamos sob influência do El Niño, pela extensão territoral, os impactos no Brasil são bastante variados. No Sul, temos a manifestação de chuvas torrenciais, muito acima das médias históricas para a região, além da intensificação das temperaturas. Pelos registros daquela década, a média de chuva para o mês de julho era entre 130 e 140 mm. Em 1983:
- Região do Vale do Iguaçu, 800 mm.
- Pato Branco, 723 mm.
- Francisco Beltrão, 668 mm.
MUNICÍPIOS CATARINENSES:
Em Blumenau, 30% da população ficou desabrigada. 42% em Itajaí, onde o porto foi afetado e paralisou as atividades. Taió teve 90% do perímetro urbano alagado e, em Rio do Sul, 25 mil pessoas ficaram desabrigadas. Em Rio do Sul, 400 casas foram levadas pela água, uma delas foi encontrada de cabeça para baixo.
GRANDE ENCHENTE DE MAIO DE 1983 EM FRANCISCO BELTRÃO:
Entre 10 e 17 de maio, já havia caído mais de 220 mm de chuva em Francisco Beltrão. Não fosse o suficiente, no dia 19, tivemos o registro de mais 156 mm e no dia 20, outros 70 mm - totalizando 226 mm em apenas dois dias.
O caos se instalou no sábado, 21, quando as águas dos afluentes do Rio Marrecas chegaram à cidade, onde então saiu da caixa, represou outros rios e deixou milhares de casas debaixo d'água.
EL NIÑO - HISTÓRIA QUE SE REPETE.
Se em 1983 ‘pudemos culpar’ o El Niño, em 2024, parte da culpa podemos ‘empurrar’ novamente a ele, mas: “Temos o Atlântico (oceano) quente na Costa do Nordeste, tanto na parte Sul do Hemisfério quanto na parte Norte do Hemisfério. Os ventos em altura giram num sentido que jogam a umidade para cima do Nordeste, entrando na Amazônia. Como na sequência têm os Andes, eles batem e vêm para o Sul. E o que o El Niño faz? Ele intensifica o ‘jato’ que é uma corrente de vento em altitude entre 8 e 10 mil metros e esse vento vem no sentido da Amazônia para cá (região sul), então ele foi o grande responsável, pois ficou trazendo umidade constantemente de lá, passando por cima do Paraguai, Rio grande do Sul, em parte Santa Catarina e uma barreira de alta pressão (massa de ar quente) não deixou a umidade subir para o Paraná(e resto do Brasil). Então, o tempo ficou seco no Paraná e muita chuva constante no Rio Grande do Sul. De maneira constante mesmo! Foram vários e vários dias trazendo essa umidade” explicou Ronaldo Coutinho, do Climaterra em São Joaquim–SC, ele que é especialista em Previsão do Tempo e Engenheiro Agrônomo.
Como curiosidade, Porto Alegre tem o início de maio mais chuvoso em 63 anos, desde 1961. Segundo CPTEC, do dia 01 ao dia 14–05 choveu aproximadamente 510 mm, o que representa, 459% da média normal para o mês.
ROL DOS MAIS MARCANTES DESASTRES
Se puxarmos o passado, temos já nas primeiras linhas desta publicação, com a região sul do país. Voltando um pouco mais nos anos, em março de 1967, podemos elencar Caraguatatuba - SP, onde após vários dias de chuva, tivemos o deslizamento de encostas e cerca de 500 pessoas morreram.
Um pouco mais recente, em 2008, Santa Catarina e novamente o Vale do Itajaí. Sessenta municípios foram fortemente atingidos pelas chuvas, culminando em mais de 80 mil pessoas desalojadas e cerca de 150 pessoas mortas.
Não tem como não lembrar de 2011, quando a região Serrana do Rio de Janeiro foi atingida pelas fortes chuvas. Novecentas mortes e ao menos 35 mil desabrigados.
Belo Horizonte, Minas Gerais, foi registrado no mês de janeiro de 2020 um acumulado de chuva de 974 mm, o que representou cerca de 65% dos 1500 mm que correspondem à precipitação total anual do município. No período, mais de 100 cidades do estado entraram em emergência, com mortes registradas em vários municípios.
Em 2022, Petrópolis–RJ, teve mais de 700 deslizamentos de terra, centenas de ruas alagadas e 241 pessoas mortas no mês de fevereiro.
A lista é imensa, tem muito mais para incluir, começando com a que estamos vivenciando.
RIO GRANDE DO SUL
Os dias de flagelo que estamos acompanhando nesta tragédia do estado do Rio Grande do Sul estão entre as maiores catástrofes do País, tanto pela magnitude dos danos quanto pela devastação humana e material. Rastro de destruição em várias cidades, afetando milhares de famílias que perderam suas casas, entes queridos e meios de subsistência.
No entanto, episódios similares, mas em menor proporção, afetaram os gaúchos também em 2023:
— Junho: Ciclone extratropical atingiu 69 cidades e deixou 16 mortos.
— Setembro: O mesmo fenômeno causou enchentes e danos a 107 municípios. Morreram 54.
— Novembro: Enchentes, mais de 700 mil pessoas foram afetadas direta e indiretamente no estado. Cinco mortes registradas e transtornos em 194 municípios.
Neste ano, até o momento desta publicação (15/05), dos 497 municípios, 447 foram atingidos – cerca de 90% do estado. Cento e quarenta e nove mortes confirmadas, 2.124.553 de pessoas afetadas, 112 desaparecidos e 806 pessoas feridas. 76.580 mil estão em abrigos e 538.245 mil seguem desalojadas (que recebem abrigo nas casas de familiares ou amigos).
Os números reais de vidas ceifadas, teremos com o baixar das águas. O tamanho da destruição? Incalculável até o momento, o que temos são estimativas.
POR QUE VEMOS TANTAS ENCHENTES NO BRASIL?
O cientista da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Renato Eugenio de Lima, afirma que existem três razões principais. A primeira é a super ocupação dos terrenos: “nós estamos impermeabilizando os terrenos com telhados, com asfaltos, com calçadas. A água que não vai para lençol subterrâneo vai para o rio. A consequência disso são mais inundações”.
A segunda é a interferência que fazemos nos canais dos rios: “nós estamos canalizando, retificando, pondo barramentos, lançando objetos nos rios e isso se volta em um desequilíbrio do sistema do rio, gerando enchentes e inundações mais frequentes”.
O terceiro motivo são os extremos do clima: “os estudos da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam que eles estão mais agudos, mais intensos, de maior magnitude. Quando nós temos hoje uma chuva forte, ela é maior que uma chuva forte no passado” afirmou Renato.
O PRIMEIRO PASSO PARA EVITAR NOVAS TRAGÉDIAS
As cenas de desespero e solidariedade testemunhadas durante o resgate e a assistência aos desabrigados evidenciam a gravidade da situação e o impacto profundo na vida das pessoas, revisitando a fragilidade das infraestruturas e a necessidade urgente de medidas preventivas mais eficazes para lidar com desastres naturais.
A tragédia não apenas vem testando os limites da capacidade de resposta das autoridades, mas também destacou a importância de um planejamento urbano resiliente e de políticas públicas voltadas para a mitigação de riscos.
A mobilização dos voluntários para auxiliar as vítimas reflete a gravidade do ocorrido e a solidariedade necessária em momentos de crise.
Este evento serve como um doloroso lembrete da necessidade de reforçarmos, ou é claro, pôr em prática, as estratégias de gestão de emergências; e de investir em infraestruturas mais robustas e seguras para proteger a população contra futuras calamidades.
FABIANO MARANGON

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